quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Todos tem uma Musa !!! ( Reeditado )




Onde está a minha? Já procurei nos lugares mais encantados e desencantados deste mundo. É uma procura inútil?...mesmo assim, não permito-me desanimar e ficar desesperançado. Por onde vago, atento estou. Ouço. Meus olhos já um tanto cansados invadem os mínimos detalhes. Quem sabe lá se encontra minha musa?...ou é apenas uma lenda( que me fascina) sobre todos terem sua musa e portanto buscar a inspiração nela?
Cá comigo penso: pode ser e deve ser uma visão totalmente simplista, esta analogia, porém constatada. Para cada pé existe um sapato, o olho e a remela estão sempre se encontrando. Este axioma seria um consolo pra este peregrino?
Se estou sentado à beira da calçada, minha atenção fica redobrada. Lá no meio daquela multidão poderia estar minha musa? Alguém repara em mim?...ou sou um fantasma?
Meus olhos de caçador observam. Vejo aqueles sorrisos, a conversa, às vezes ao pé do ouvido, gesticulando, fumando, atendendo o celular, tirando da bolsa um pequeno espelho, pára, pega o batom, faz tipo um beicinho, os lábios aceitam de boa aquele agrado, sorri novamente e segue adiante. Continuo sentado ali. Ninguém me repara?
É um ciclo, dia e noite, meses e anos. Como posso ser alguém se não tenho a minha musa? Porquê todos têm e eu não?
Os escritores Gregos visitavam OLIMPO : nome de várias montanhas situadas ao norte da Grécia, lá criaram verdadeiros clássicos inspirados em Zeus e Hera.
Alexandre Dumas inspirou-se em sua musa e nasceu a obra A Dama das Camélias.
E eu?...continuo sendo um fantasma?
HO CHI MINH o poeta e guerreiro Norte-Vietnamita teve como fonte de inspiração sua musa que se chamava: Independência.
E eu?...
O Jogador, obra conhecida universalmente, de Dostoiévski , teve como musa inspiradora o Carteado.
Momentos existem( momentos passageiros) que perco a fé. Sou apenas um ser humano ( nada de auto-piedade) , já não caminho como antes, meus passos são arrastados. Teimo( ainda) em procurar minha musa, chova ou faça sol.
Será que alguém quando encontra sua fonte de inspiração ou sua musa deram-lhe uma dica ou foi obra do acaso? ....existe o acaso?
Estou ficando louco? É possível...
Mais um tempo passou, vieram as estações do ano, se repetiram, e mais outras. Decidido, desisti. Quem tem uma musa é merecedor. Resignado fiquei por mais de dez anos, apaguei das minhas memórias esta ilusão, sim, cheguei a conclusão que era uma miragem criada em minha cabeça.

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Naquela madrugada chuvosa, pouco antes das duas horas, resolvi caminhar debaixo daquele temporal, me encontrava agitado, quando não, era insônia,ou pesadelos terríveis me invadiam, acordava gritando. Que vida !!!
Noite assustadora para alguns, contudo sentia-me bem, solitário, caminhando debaixo daquela chuva incessante.
Naquela rua estreita e comprida, corria tanta água da chuva que parecia um córrego . Tive impressão que ouvi um grunhido, porém os ecos do trovão deixaram-me confuso. Não devia ser nada. Fui caminhando com passos lentos, queria absorver de todas maneiras possíveis ,àquela água adentrando por debaixo de minha roupa até chegar aos sapatos e penetrar nos pés.
Outro grito ou grunhido, não, parecia um soluço ou choro? Parei de caminhar. Prestei atenção, será que era imaginação ? Estaria delirando ou febril? ...ou influência daquela noite escura como breu? O vento assoviava e arrastava pequenos objetos dos paralelepípedos. Continuei a caminhar , sem rumo ,naquela escuridão.
Um relâmpago cruzou o céu, por décimos de segundos a noite ficou clara. Sem querer olhei para aquele aguaceiro batendo com violência em minhas pernas, outro grito ou gemido, ouvi perfeitamente, fui logo em sua direção, desta vez não era imaginação. Descendo pelas águas da chuva uma pequena trouxinha embrulhada , forcei a vista, agachei, apalpei, toda encharcada, parecia ser uma criança...e era mesmo. Tentei acender o fósforo, queria realmente me certificar, mas o vento não deixava, outro gritinho, era sim, uma criancinha.
Corri o mais que pude contra àquela ventania que havia aumentado muito com a chuva.
Dentro de casa, desembrulhei aqueles panos rasgados e sujos, àquela criança miúda e esquelética estava com os lábios e todo o rostinho roxo. Será que ia morrer?...ou estava morrendo? Outro soluço. Passei um pano em seu corpinho frágil e a enrolei em um cobertor. Fiz de tudo para aquecê-la, passados uns minutos tive impressão que ela estava reanimando. Passava minhas mãos levemente em cima da coberta, para aquecer, parecia fria como a morte. Meu Deus, não permita, por favor, não permita. Não sabia exatamente o que fazer , como agir naquela situação que era totalmente nova pra mim, e o tempo piorava e piorava, parecia que o mundo ia acabar. Meus dedos percorreram seu rostinho, suavemente, o dedo minguinho passou na sua boca, ela abriu e começou a chupar. Só podia estar com fome, aquela boquinha sugava meu dedo e como sugava, dei de sorrir e também me emocionei. Um pequeno esforço e retirei o dedo, parecia que àquela criança possuía uma forcinha, pois tragava o dedo como se não quisesse que eu o tirasse. Mas era preciso.
Esquentei um copo de leite , peguei uma colher pequena. Do meu jeito consegui colocá-la no meu colo. Precisava ser alimentada. Sua boquinha estava aberta com os olhinhos quietos. Levei a colher com leite em sua boca, estranhei, não fez nenhum gesto como há poucos minutos atrás, com o meu dedo. O leite derramou, ela não engoliu. Tentei novamente, e novamente. O leite esparramava na sua boca ou caía do lado. Pus o dedo minguinho novamente em sua boca. Aí assustei, e comecei a chorar.
- Vamos...vamos, reaja !!!
Apertei aquele embrulhinho no meu peito. Abracei. Esfreguei a mão em suas costas por debaixo do cobertor.Fui esfregando...esfregando....Um soluço quase impossível de ouvir, a pequenina soluçou? Será?...ou minha angústia era tanta que me roubava os sentidos?
Fui fazendo a massagem por longos minutos. Soluçou sim....e começou a chorar. O que havia acontecido? Até o dia da minha morte levei comigo esta lembrança.
Engraçado como é a vida ou os valores que estabelecemos pra ela.
Durante tantos anos incansavelmente procurei minha musa, e fui achá-la jogada nas águas, abandonada.
Por quase quinze anos ela foi minha inspiração, minha esperança e alegria. Àquela solidão doída desapareceu, o sorriso retornou aos meus lábios. Brincávamos sem parar até o sono derrubá-la. Muitas horas, durantes estes quinze anos, ficava à beira da porta do seu quarto, quando estava dormindo, olhando-a e agradecendo por aquele dia chuvoso. Minha musa dormia tranquilamente o sono dos anjos.

Miquito Mendes !!!

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